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InterBlogs - Brasil 18/11/2008 - 17:42 |
Um Recife (quase) parado no tempo
Homero Fonseca
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| A Biblioteca de Afogados, de 1953, ainda está lá, do mesmo jeito |
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Há um Recife profundo, desconhecido pela classe média emergente moradora das zonas norte (Casa Forte e circunvizinhanças) e sul (Boa Viagem etc.), que aflora em minha memória quando volto de São José da Coroa Grande e saio da BR 101 à altura de Tejipió. É a zona sudoeste da cidade, um corredor que vai do citado Tejipió até Afogados, passando por Sancho, Barro, Areias, Estância, onde somente agora, conforme leio num saite qualquer, está sendo festejada a chegada de “modernos empreendimentos imobiliários”. Penso justamente o contrário, sem qualquer laivo de imobilismo ou fobia ao progresso, apenas escabreado com os resultados do progresso a qualquer preço. O caso é um ótimo exemplo.
Morei ali, no Barro, em fins dos anos 50, quando tinha entre sete e oito anos, numa ruazinha transversal à avenida José Rufino, espinha dorsal da região com sua continuadora, a avenida São Miguel. Numa transversal do outro lado ficava o Cinema Itatiaia, onde assisti a filmes e séries, inclusive a inacreditável “O avião fantasma”, cujo protagonista era um daqueles aeroplanos dos anos 30-40 e por isso a maioria de suas seqüências acontecia em tomadas externas em que o aparelho sem piloto perseguia e castigava os bandidos. Durante muitos anos, adulto, procurei em vão alguém que conhecesse o seriado e já estava me convencendo de que o filme não existia, tudo poderia ter sido fruto de fantasia infiltrada em minha memória quando, no antigo bar Mustang, na Boa Vista, o amigo e jornalista Luís Roberto Marinho, há remotos anos radicado em Brasília, me garantiu também ter assistido aos eletrizantes capítulos d’”O avião fantasma”. O que prova ser necessário o testemunho do outro para que nossas crenças se firmem ou se mantenham. Eventualmente ia ao Cinema Guararapes, maior e um pouco mais distante, creio que já em Estância, onde assisti à chanchada “Sai de baixo”, com Ankito, imitador de Oscarito, também muito engraçado. Mas voltando ao bairro: a maioria das ruas não era pavimentada (calçada, dizia-se), havia imensos descampados, nenhum edifício alto, mutíssimas árvores e areais. Onde hoje é a linha do metrô passavam os trilhos da Great Western, depois Rede Ferroviária Federal, da qual meu pai era empregado, e pela qual viajávamos nas férias a Caruaru, a partir da estação de Edgar Werneck, não muito distante de casa.
Pois bem, passando hoje por lá, vejo que, em relação às demais áreas da cidade, pouco mudou, embora a maioria das ruas seja agora pavimentada, os descampados foram ocupados por conjuntos populares, o número de árvores tenha diminuído e os cinemas sejam um retrato na parede de algum aficcionado. A imensa maioria das habitações continua sendo de casas, não vi nenhum espigão. A sensação que me deu foi de um lugar parado no tempo ou, para ser mais exato, um lugar em que o tempo passou numa velocidade muitíssimo menor do que nas demais áreas da cidade, especialmente as mais “nobres”. Algo próximo do que senti em Cuba, do que li numa maravilhosa reportagem de Mariana Camarotti sobre a Argentina, na revista “Continente”, ou que percebo em fotos, filmes e jornais de outros países da América Latina, em graus variados, claro. São lugares em que o tempo anda noutro ritmo comparativamente ao Brasil, tão gritantemente desigual, onde o Leblon (um dos mais aprazíveis bairros do mundo) coexiste com a favela da Rocinha (e essa convivência “junto mas desigual”, como diz o Roberto DaMatta, sem dúvida explica muito da situação do Rio hoje), e onde, para não ir tão longe, aqui mesmo no Recife, encontramos igualmente desníveis semelhantes. O curioso em relação à zona sudoeste é que, nem sendo favela nem bairro “afluente” , e certamente por isso mesmo, revele esse descompasso temporal. Por algum motivo a merecer maiores estudos , essa área deixou de ser atrativa para o novo mercado imobiliário e ficou para trás. Seria algo a lamentar se o crescimento das outras áreas tivesse algum tipo de equilíbrio econômico, social, cultural. Mas não foi isso que aconteceu. Creio que a urbanização desatinada, concomitante à modernização acelerada a partir dos interesses exclusivos do grande capital, tudo estimulado sistematicamente pelo modelo econômico adotado nos 21 anos de regime militar, produziu esse crescimento perverso com concentração de renda, resultando na anomia que está minando nossa coesão social, com os efeitos monstruosos que todos lemos diariamente nos jornais ou assistimos na TV.
Não sei se para melhor ou para pior, mas o Recife profundo da minha memória infantil, o Recife do eixo Tejipió-Afogados, ficou um pouco fora desse movimento frenético e mantém uma cara, pelo menos, mais bucólica, mais “atrasada”, de certo deslocamento no tempo. Não sei se seus moradores têm consciência disso. Talvez se envergonhem em comparação com os bairros “nobres” e aspirem se mudar para alguma quitinete no edifício Califórnia ou no Hollyday, em Boa Viagem. Talvez aqueles bairros merecessem ter progredido mais, especialmente em termos de atendimento à saúde, educação etc. e, possivelmente, não estão imunes aos efeitos da guerra civil não declarada que vivemos no restante da cidade. É possível. Mas suas casas antigas, suas fachadas empoeiradas, suas inscrições de “vila” em alguns frontispícios me fizeram mergulhar no túnel do tempo e sair marcado não por uma nostalgia regressiva tipo “antes era melhor”, mas por certa dose de amargura por perceber, a partir daquele modelo reduzido e em contraposição aos demais espaços da cidade, o que fizeram com nossa terra e nosso povo, compreendendo um pouco mais o quadro de horror que nos rodeia. |
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